31 março 2022

BBB como metáfora das relações no capitalismo: o que a eliminação de Vyni ensina sobre vivências de homens negros gays e afeminados

Foto: reprodução instagram
Arte de Wanderson Petrova Cavalcante, em muro no Cariri

[Texto arquivado desde idos de março de 2022]

Junte pessoas com personalidades distintas num ambiente com regras próprias, esprema “entretenimento” de pautas sociais em relações improváveis e abra uma conta no banco. Você terá não só a receita de sucesso do Big Brother Brasil como também uma reprodução fiel do capitalismo em escala reduzida e baseada nos usos da imagem como força de trabalho. Não é necessário esforço para fazer acontecer: a manipulação da dinâmica do jogo midiatiza vivências e problemáticas próprias de algumas minorias, contribuindo para mascarar preconceitos como preferências. O público adora isso e a eliminação de Vinicius (Vyni) ratifica a afirmação.

Pense em Jean Willis, negro, nordestino e o único homem gay a ganhar o BBB em vinte e duas edições, privilegiado pela postura aproximada do ideal de masculinidade em tempos nos quais ser homossexual na TV aberta só comportava existências entre o discreto e o caricato. Agora pense em Gil do Vigor e Vyni, ambos negros, nordestinos e gays afeminados com trajetórias de jogo distanciadas de Willis e também entre si — mesmo sendo contemporâneos em um momento sem precedentes quanto à comercialização/consumo de identidades LGBTQIA+. Por que Gil caiu nas graças do público e Vyni foi tão criticado? A crença de que a diferença na recepção desses dois foi definida apenas no jogo e pelo gosto do público predomina devido à comodidade da visão limitada.

A expectativa colocada sobre Vyni traduz a violência histórica da imposição de papéis ancorados no racismo ao homem negro, além da contínua investida para definir um parâmetro de validação para o ser gay. O discurso do mérito justificado pelo “mirou no Gil e acertou no Victor Hugo” funciona como uma alegoria da construção da sexualidade do homem negro no senso comum — não deveria ser necessário escrever sobre como a promessa da repetição do sucesso é mais um rótulo —, imprimindo frustrações em suas relações afetivas para consigo e o Outro. E essa mensagem, agora meme nas redes sociais, anula ainda uma série de determinantes específicos da questão racial em detrimento da sexualidade (Victor Hugo é gay e branco), desconsidera privilégios e retoma o estigma da impossibilidade de relações de amizade desinteressada entre homens gays e héteros.

O ódio e os ataques homofóbicos gratuitos direcionados ao Vyni na internet, basicamente em torno das comparações com Gil e da aproximação com Eliezer, reforçam a centralidade da masculinidade heterossexual e cisgênero na sustentação do microssistema BBB. O brotherhood, o círculo de proteção e perpetuação do machismo, da edição 22 segue o caminho da reinterpretação do BBB10, cujo campeão se desculpou recentemente por ter defendido o “orgulho hétero” e a “resistência hetereossexual” à época. Em meio a grandes chances de outro resultado como esse, a importância de termos homens gays e afeminados ocupando tais espaços é desconsiderada, assim como o peso da história e das necessidades objetivas desses participantes.

Mas o centro da preocupação do público, a lente de aumento sob todas as ações de Vyni foi (e continua sendo) a amizade com Eliezer. Toda especulação sobre um possível interesse romântico é agenciada pela ideia da aproximação interessada, perpetuando a leitura da pessoa negra como aquela que busca se beneficiar da relação, e torna-se ainda mais violenta ao desconsiderar as vivências do homem negro, gay e afeminado. A dinâmica societária e sua sucessão de preconceitos busca limitar essa existência a um não-lugar, a esse espaço de significação no qual as únicas possibilidades são a do objeto de fetiche e/ou da servidão afetiva — trama tão agressiva que inviabiliza a percepção de si nesse imbróglio. 

Com isso em mente, uma avaliação dessa tendência à entrega diante de demonstrações de afeto transcende a carência individual, refletindo o processo ao qual as relações afetivas negras e LGBTQIA+ estão submetidas no capitalismo, relações desejadas na mesma medida em que desconhecidas. Na dobradinha Vyni e Eli, cabe ainda a reflexão sobre como Eliezer se localizava nessa posição que, consciente ou inconscientemente, não deixou de ser cômoda para ele. Não se trata de duvidar da legitimidade do sentimento, mas de entender que o cuidado em não transmitir mensagens dúbias, não necessariamente colocadas através de palavras, é um exercício incômodo pois desconstrói uma norma, sem deixar de ser algo próximo de uma reparação histórica.

Qualquer audiência com o mínimo de consciência política deveria compreender como é importante resgatar essas aproximações e distanciamentos como forma de atentar para o racismo, a homofobia e a xenofobia performados nas entrelinhas. E identificar os discursos por trás das comparações e da "preferência" para entender como contribuem na reprodução dessas violências e ratificam uma ideia de diversidade que só é endossada pelo público em geral porque parte de uma perspectiva normativa e da comercialização da imagem. O mesmo serve para a militância problemática dentro dos movimentos sociais, que tantas vezes presta um desserviço com a homogenização nas leituras acerca daqueles que dão a cara à tapa na mídia popular.

20 março 2022

Escrever receitas, fermentar afetos: cozinhar como gesto para além prato entregue à mesa

É claro que eu não poderia deixar de ter um caderno de receitas

Cresci numa casa onde todos cozinhavam. Minha avó preparava pratos festivos como ninguém, meu avô era muito bom com carnes e ensopados e minha mãe, assumindo o trabalho pesado, cuidava das refeições diárias. Tínhamos o costume de receber muitas pessoas em casa nos finais de semana, quando a movimentação na cozinha era sempre mais intensa. À época, ainda na infância, eu estava sempre presente nesse espaço — roubando fatias de queijo e presunto ou enfiando o dedo na massa de algum bolo por pura diversão.

Com o passar do tempo e estimulado pelas mulheres da casa, comecei a preparar meus primeiros bolos de massa pronta e, aos poucos, a arriscar o pê-efe nosso de cada dia. Bem antes dos 18 eu já sabia o básico para reunir colegas de escola em almoços organizados com a contribuição de todos (a essa altura do campeonato as coisas já tinham apertado). Mas a compreensão do real significado da culinária só viria anos depois, com a necessidade de assumir o preparo das refeições básicas de casa.

O ato de cozinhar se associou ao do cuidado com as questões de saúde da família, implicando na redução do uso de sal, açúcares e condimentos com os quais estávamos habituados e coincidindo com períodos difíceis em termos de renda. Isso me levou a pesquisar, redescobrir os usos de grãos, hortaliças e especiarias, a buscar alternativas possíveis para que o dia a dia na mesa de jantar fosse mais leve e saboroso — principalmente para minha mãe, hipertensa, diabética e recentemente acometida por um AVC —, sem aumentar os gastos. Em paralelo, no meu último relacionamento pude acessar a aproximação com a memória afetiva, resgatando pratos das nossas infâncias e (re)criando essas recordações de forma conjunta, no café da manhã, nos almoços pontuais às 12h00 ou nos lanches da tarde (quando eu dava vazão à criatividade, dentre outras coisas, no preparo de bolos).

Meu bolo de chocolate recém saído do forno

Da infância até esse ponto, foram inúmeros os bolos solados e as tentativas de lidar com a alquimia da farinha de trigo peneirada, da porção exata de fermento, dos ovos em temperatura ambiente. Levei tempo para descobrir que bases para bolos com gordura líquida são feitas no liquidificador, enquanto os amanteigados são batidos à mão ou na batedeira. E descobri que para bolos de chocolate as formas são untadas com trigo e cacau em pó, para não manchar de branco ou criar uma crosta de chocolate queimado ao redor da massa, das piores formas. Outro episódio infame foi o desse dia em que preparei uma surpresa de abacaxi para receber dois colegas e, pela medida de creme de leite, terminamos os três com dor de barriga.

Quando comecei a acertar e ver o brilho nos olhos de minha irmã na primeira mordida em algum preparo meu, o orgulho no rosto de minha mãe e o homem que me beijava passando a língua nos cantos da boca para não perder vestígio de cobertura de chocolate eu entendi que cozinhar é uma forma consciente de amar. E então desejei repetir essas sensações e comecei a perceber as pessoas me pedindo esse ou aquele prato porque "era muito bom" — não esqueço meus colegas de faculdade me fazendo enfrentar a linha Pontal/UFAL, agora extinta, com seus pedidos. Cozinhar só se tornava cada vez mais satisfatório, apaixonante.

Outra prova viva da dimensão afetiva da culinária é sua relação uma outra paixão — a escrita. Quando minha avó faleceu, minha mãe me entregou todas as suas cadernetas de anotações, receitas escritas nos versos de talões e carnês, bem como de rótulos, revistas e livros de receita comprados nos catálogos Hermes e Avon ou na banca de revistas em frente ao supermercado que costumávamos frequentar. Hoje tenho meu próprio caderno de receitas (cheio de firulas, é verdade, como não poderia deixar de ser para um amante de papelaria), mas guardo como um tesouro o conjunto das coisas de minha avó. Minha lasanha é a receita original dela, com o diferencial de que eu mesmo preparo a massa ao invés de usar a pronta, e o bolo gelado de coco que faz sucesso no meu trabalho também. Em tempos de dependência e pressa fomentadas pelos recursos digitais, escrever e copiar receitas se tornou um meio de ancorar o corpo e devolver a escrita para o papel.

O ideal é esperar o bolo esfriar para cortar, rechear e cobrir

A tudo isso se mistura o rigor terapêutico da culinária, outro ponto em comum com a escrita. Em ambas as atividades nós inscrevemos emoções, dosamos efeitos e combinamos ações com o silêncio. Os sons, os cheiros, os sabores nas pontas dos dedos ou nas colheres e espátulas, as cores dos alimentos se confundem com a textura do papel, o carvão do lápis, a cor e o cheiro da tinta da caneta. A cozinha poderia, sem dúvidas, ser classificada como o lugar de exercício da harmonia, ela é o coração da casa e pode muito bem ser o caminho, a porta de entrada para o contato com o próprio coração (bem como a escrita). Só não vale salgar os preparos com lágrimas!

Por fim, uma "chuva" de chocolate meio amargo

Essa predominância do cuidado/afeto, portanto, é importante pois tanto diz respeito ao outro quanto ao próprio indivíduo cozinheiro, dando espaço para a carga política do gesto: a independência culinária anda de mãos dadas com a boa alimentação. É libertador fazer a própria comida sem precisar da anuência de alguém, sem estar refém de industrializados e/ou dos aplicativos de entrega, desde que você possua os meios necessários para esse tipo de alimentação. Por isso, falar de comida e política é também falar sobre nutrição e distribuição de renda, reconhecendo o Brasil como um país no qual, só em dezembro de 2020, 116,8 milhões de cidadãos não tinham acesso pleno e permanente a alimentos em plena pandemia.

Por esses e outros motivos, passei a valorizar ainda mais o ato de alimentar o outro e tudo o que está envolto nele. Hoje, em meio às minhas próprias dificuldades, sigo tentando fornecer às pessoas no meu convívio um pouco de afeto e cuidado e demonstrar um posicionamento político através da preparação mais simples, como o bolo de chocolate que ilustra este texto. Gosto de pensar nos bons momentos e lembranças que uma fatia pode render e na possibilidade de comer bem, no sentido de comer alimentos saudáveis, com o pouco que me é possível dividir. Por isso me dá gosto e, de certa forma, me emociona proporcionar momentos como esse.

E voilà! Bolo pronto!
Todas as fotografias são de autoria própria.

31 janeiro 2022

30 anos e 30 álbuns para 2022: parte 1

Já faz alguns meses que venho enfrentando um bloqueio criativo. A escrita se tornou escassa para além de ideias em guardanapos e folhas de Post-It espalhados pela casa, limitando os avanços do conteúdo do blog. Reelaboro uma tragicomédia – pois minhas definições para 2022 envolvem trabalhar mais com a prosa tendo esse espaço como mote – e tento girar a chave emperrada na cabeça aproveitando minha própria companhia e avaliando outras: físicas, literárias, cinematográficas, sonoras.

Tenho estudado possibilidades e os inúmeros impasses entre o lugar onde estou hoje e o vislumbre de onde gostaria de estar. À beira dos 30 essas coisas se tornam mais urgentes, então busco pistas sobre erros e acertos em contato com outros momentos através da memória afetiva ligada à música. Pensando em toda essa situação e na escrita como uma necessidade, resolvi dar uso aos limões: montei uma lista com 30 álbuns marcantes na minha vida e/ou na minha escrita – essa divisão com limites borrados, já que a escrita é também um lugar de auto exercício e, portanto, de singularidades variáveis de individuação.

Dito isso, gostaria de deixar claro que a lista:

1) é majoritariamente composta por discos da década 1990, por preferência e também pelo diálogo entre conteúdo lírico e experiências pessoais;
2) considera mais obras de autoria de mulheres, muitas delas na articulação entre a primeira edição do Lilith Fair e suas conexões com a expressão da terceira onda feminista na música;
3) não obedece nenhum critério de classificação, visto que, por motivos óbvios, isso não faz sentido;
4) destaca algumas faixas de cada disco, nem sempre considerando as minhas favoritas (então recomendo fortemente a audição completa de cada um deles), acompanhadas de links do áudio ou do vídeo no YouTube.

Todos os álbuns citados refletem muito sobre a minha formação enquanto pessoa e dizem, cada um a seu modo, mais sobre mim do que eu mesmo conseguiria escrever... ao menos hoje.

***

1. Boys for Pele (1996), Tori Amos: um ponto de ruptura para mim, ensaio uma resenha dele há tempos. Tori Amos é, sem sombra de dúvidas, uma das artistas mais completas e criativas em atividade. O conteúdo lírico orbita a ideia da busca pelo próprio fogo, entendido tanto em seu potencial destrutivo quanto na sua potencialidade criadora, através do “sacrifício” dos homens em nome de Pele, deusa havaiana do fogo/vulcão. Foi um álbum que influenciou muito a escrita do Anjos tocam lira nas molas do colchão, meu primeiro livro, principalmente pela força feminina em contraste com o peso do patriarcado (que também se faz presente através da ausência). Além disso, é também definitivo no meu interesse por instrumentos de corda. Destacar faixas desse disco é impossível, mas deixo como recomendações Caught a Lite Sneeze e Blood Roses.

2. Fumbling Towards Ecstasy (1993), Sarah McLachlan: lembro como se fosse hoje a primeira vez em que ouvi esse disco. Sonoridade característica da época, elevada pela combinação entre composição impecável e a voz de McLachlan, que não se distancia disso. Liricamente, o álbum traz muitos elementos sobre amor e pertencimento. Destaco as faixas Possession – escrita a partir do ponto de vista de um homem transtornado/obcecado por uma mulher, refletindo a experiência da cantora com um stalker que posteriormente a processaria pelo suposto uso indevido de uma de suas cartas na letra – e Good Enough.

3. Love in the Time of Science (1999), Emilíana Torrini: genial desde o título com essa referência ao Gabriel García Márquez, o disco foi meu companheiro nas longas viagens de ônibus até a faculdade nos primeiros anos de curso. Flerta com uma sonoridade mais experimental e elementos do trip-hop – assim como os álbuns da Björk, conterrânea de Torrini, pós-Debut. As letras incorporam muito de uma busca por autoconhecimento a partir da perspectiva da juventude, considerando momentos de baixa e solidão, mas também a compreensão de que nem sempre tudo será um mar de rosas. E OK se não for, porque "sad things have to happen". Destaco To Be Free, Unemployed in Summertime, Easy e Tuna Fish.

4. Relish (1995), Joan Osborne: esse é um dos discos da lista com os quais tive contato mais cedo. Cheguei até ele através da música One of Us, que tocava alucinadamente nas casas dos meus vizinhos graças à coletânea de videclipes pirateada LoveHits – um DVD que todo mundo tinha. Relish é especial pelo trato de arquétipos cristãos e todo o recurso à espiritualidade presente nas letras. Tendo nascido em seio católico, encontrar um disco que trabalha esses elementos com uma sonoridade popular alternativa foi ótimo na época. Destaco as faixas One of Us, é óbvio, St. Teresa (que tem um dos vídeos mais incríveis que já vi) e Pensacola.

5. Pretty Hate Machine, Nine Inch Nails (1989): um de sonoridade destoante do resto da lista. O trabalho do Trent Reznor como compositor está traduzido no título do álbum. As letras são muito honestas, por vezes até agressivas, mas a genialidade está justamente nesse aspecto – a captação de vivências próprias de um momento de revolta, mentiras, traição, descontentamento social e a descoberta de novos meios de compreensão da figura de Deus. Na época das primeiras audições, me conquistou mais pelo conteúdo lírico; hoje é um dos meus preferidos entre os experimentais do coração. Destaco Ringfinger, Down In It, Sanctified e The Only Time.

6. The Sound and The Fury (2015), Nerina Pallot: outro disco que me acompanhou durante a época da faculdade. Conheci Nerina através da colaboração com Sandy em Dias Iguais. Como as demais artistas citadas até então, ela também incorpora a perspectiva feminista nas letras, que detém uma complexidade bem diferenciada em momentos como Rousseau. O disco é especial, entre outros aspectos, porque me encontrou em um momento de leveza e criatividade, e logo virou um daqueles que a gente põe para tocar e canta do começo ao fim. As faixas Big White House, There Is a Drum, Spirit Walks e If I Had a Girl merecem destaque.

20 dezembro 2021

Entre a máquina de costura e a máquina fotográfica: uma resenha de "O lugar que somos" de Laryssa Andrade


Durante a pandemia, fui atravessada por memórias não vividas por mim.

O lugar que somos rememora, através de vestes e objetos, o espaço coletivo onde a história das mulheres da minha família se moldou desde 1940, sendo a costura o nosso símbolo de força, poesia, amor, dor, e sustento desde então.

– Laryssa Andrade sobre seu próprio documentário.

O lugar que somos (Maceió, 2021) é um documentário dirigido, roteirizado e montado por Laryssa Andrade, fotógrafa, escritora, pesquisadora em estudos sobre imagens e feminismos e integrante do Punho Coletivo – iniciativa de mulheres alagoanas produtoras de conteúdo audiovisual. O filme foi selecionado para a 12ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano, sendo exibido em intervenções urbanas realizadas pelos bairros de Maceió como parte da sessão Sentir. Foi também candidato em votação popular no site do evento, onde permanece disponível para streaming. A obra orbita o lugar da costura nas vidas das mulheres da família de Laryssa, conforme alerta sua sinopse.

O filme traz a prosa memorialística de Meran, Selma e Vilma em suas experiências com a costura, a princípio como objeto da curiosidade típica dos 4 ou 5 anos de idade, mas também enquanto exercício de distração, demonstração de afeto e ganha-pão, quando as preocupações se tornaram outras. Entre as Andrade o movimento da agulha e da linha é como sangue, um elo poderoso diante da certeza cabal do tempo: ele passa. E embora passe, o tempo não sai impune aos relatos daquelas mulheres. Elas insistem no tecer de suas vidas e conjuram uma sabedoria quase espectral, uma voz que não escutamos em momento algum no documentário, mas se faz ouvir pela apropriação do silêncio em recusa ao estatuto de memória – é Maria José, Dedé, como a chamam as consanguíneas, que cose suas narrativas como fazia com os vestidos que preparava.

Captura de cena do filme

Em certa altura do filme tornou-se impossível não relembrar Bordado y costura del texto, artigo no qual Tamara Kamenszain relaciona escrita e espaço e trabalho domésticos a partir da ideia da mulher como sujeito responsável pela trama da história familiar. A mulher a escreve e/ou tece por meio das diversas atividades domésticas, dentre as quais a costura. Em nível abstrato, isso traduz o que no filme é o rigor da consciência expandida de dona Dedé, com suas percepções acerca de problemas da ordem do gênero e a compreensão de que, para ser “costureira de verdade”, era necessário lidar com a imposição do trabalho da casa, do cuidado com os filhos, tarefas tantas vezes usadas como chancela do ser mulher.

Aqui, contudo, não se fala de conformação, mas de certa rebeldia – ser costureira era necessário para ter o que comer e vestir, para dar de comer aos filhos e vesti-los também. Na ausência colocada pela partida do marido, uma das narradoras encontra na costura o espaço para reconhecer-se motor do futuro de sua família, essa responsabilidade imperativa que a fez recusar um convite para trabalhar em um ateliê no Rio de Janeiro. São evidentes, portanto, os cruzamentos entre afetividade e classe nos olhares das mulheres com as quais lida Laryssa. E esses cruzamentos também estão presentes na força dela (que tem um apelido tão carinhoso quanto o de Dedé, Lary), pois sua opção pela máquina fotográfica ao invés da de costura demarca uma escolha de outra grandeza. Ela conhece o lugar de onde veio, sabe onde se encontra e tem suas lentes focadas onde quer chegar, mas é urgente a contação das histórias que seguram sua mão durante o percurso.

As mensagens nos alcançam por meio de um fio condutor muito próprio de alguém cujo olhar possui afinação poética, algo que não falta em Laryssa. Essa sensibilidade está presente desde o título do filme, que empresta um verso de poema de Ana Miranda: “E quando ali retornarmos/Verás que nunca nos fomos/Pois o lugar onde estamos/O lugar onde estaremos/É sempre o lugar que somos.” A diretora nos brinda com imagens de álbuns de fotografia, máquina e demais instrumentos de costura, roupas estendidas no varal e outras feitas em casa, de modo que, muito sutilmente, tudo ganha novas proporções com os relatos ao fundo. Há ainda outras imagens do cotidiano urbano intercaladas em momentos estratégicos, como se a autora nos convidasse a perceber a beleza desse espaço e como nele se costuram, diariamente, tramas infinitas; como se evocasse esse espaço para nos trazer para dentro, para esse lugar que todos nós, a partir de nossas experiências coletivo-individuais, também somos. 

Enquanto neto de costureira, tendo crescido entre pilhas de Moda Moldes – cujos moldes eu abria como se fossem mapas de navegação para terras longínquas, e de certa forma eram mesmo – e observando a dinâmica do ateliê de minha avó, posso dizer que assistir O lugar que somos trouxe muitas memórias afetivas. Laryssa trabalha de forma tão especial com o poético e o político, guia a atenção do espectador exatamente para o lugar onde deseja que estejamos e o faz como quem envia um convite cor-de-rosa embrulhado em papel de seda.

Se Dedé é linha e agulha, Dedé é o lugar que são as Andrade; é ela quem traja primeiro a indumentária da costureira, ajustando-a para cada uma das que viriam depois dela. E se Laryssa é filme e foco, e talvez a primeira de sua família a substituir a máquina de costura pela fotográfica como objeto de trabalho, tem muito de Dedé. Arrisco dizer que foi com ela que aprendeu a “costurar”, pois, através do gesto do dedo no botão da filmadora, Laryssa captura a trama da vida das mulheres de sua família em um exercício que a coloca diante da própria história. Ambas, Laryssa e Dedé, nesse lugar que são, tomam para si a tarefa de manter viva uma tradição, de manter aceso algo grandioso e inexplicável – você pode chamá-lo de amor ou de luta.